Colocar máscara e sair por aí detonando tudo não faz de ninguém um “black bloc”

A tática black bloc tem sua origem em uma estratégia defensiva iniciada por manifestantes alemães. Em maio 1980, alguns manifestantes se vestiram de negro usaram capacetes e escudos e formaram um bloco para proteger a si mesmos e aos demais manifestantes da violência policial. Como se vê, foi originalmente uma tática defensiva. 

O jornalista e historiador Bruno Fiuza, fala do momento em que a tática partiu da defesa para o ataque. Segundo ele, em novembro de 1999, um bloco negro se organizou para participar das manifestações contra a OMC em Seattle. 

Segue o texto na íntegra: “Graças à ação desse black bloc, a tática ganhou as páginas dos grandes jornais no mundo inteiro, principalmente porque, a partir de Seattle, os black blocs passaram a realizar ataques seletivos contra símbolos do capitalismo global.

A mudança se explica pelo contexto em que se formou o black bloc de Seattle. A década de 1990 foi a era de ouro das marcas globais, quando os logos das grandes empresas se transformaram na verdadeira língua franca da globalização.

Nesse contexto, o ataque a uma loja do McDonald’s ou da Gap tinha um efeito simbólico importante, de mostrar que aqueles ícones não eram tão poderosos e onipresentes assim, de que por trás da fachada divertida e amigável da publicidade corporativa havia um mundo de exploração e violência materializado naqueles logos.

Ou seja: o black bloc de Seattle inaugurou uma dimensão de violência simbólica que marcaria profundamente a tática a partir de então.”

Por princípio, acho que qualquer ação violenta cria uma repercussão contrária que afasta a massa e isola o próprio movimento. É responder à antítese com a antítese, portanto não gera dialética. Mas convenhamos que naquele contexto houvesse uma lógica de choque que poderia despertar consciências adormecidas. 

Mas trazendo para o contexto atual, qual a lógica de se atacar agencia bancária e quebrar vidraça ou até vaso de plantas em reivindicação por passe livre ou aumento de salário de professor? Imagino o diálogo mental: “Vai ter protesto? Ótimo, vou me vestir de preto, colocar minha máscara, pegar minha marreta pra ver se quebro uns vasos de plantas, pra protestar contra o capitalismo mundial!”

Em comunicação não vale apenas o que se diz, vale mais o que o outro entende. Obviamente, fica difícil entender algo de revolucionário na repetição de selvageria contra objetos inanimados, sem fundamento claro e coletivo. O que estamos assistindo hoje é mais uma demonstração de fúria descontrolada sem tática ou estratégia. 

Independente de concordarmos ou não com seus métodos é importante saber que black bloc não é movimento é tática. É ação destruidora simbólica e não desculpa para explosão descontrolada de fúria. Se vestir de preto, colocar máscara e sair por aí detonando tudo o que se encontra pela frente, não faz de ninguém um black bloc. Pelo menos não no sentido original do termo. 

(Leilton Lima)

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