Espiritualidade e transformação social

Veja o video:  http://www.youtube.com/watch?v=YpG6N1OQrC8

O filósofo Leonardo Boff defende que Jesus estabeleceu sua doutrina baseada em dois princípios: uma relação filial com Deus e a transformação da sociedade através da conversão. Essa relação filial rompe com a ideia do deus cruel e injusto e coloca em seu lugar um Deus que permite as falhas humanas e com isso auxilia a humanidade a aprender com seus próprios erros a partir das dores que ela própria se impõe.

Superar esses erros exige conversão.  Não a uma doutrina religiosa ou a uma ideologia, mas no sentido de transformação íntima que rompe com tudo que era velho(superado) e institui o novo, preservando o antigo(o aprendizado consolidado).  Trata-se de uma evolução que começa no interior de cada ser, a qual ele chamou de “Reino de Deus”. 

            Se, como sabemos, o meio e o homem se influenciam mutuamente, o Reino de Deus seria então um sistema de pleno bem-estar pessoal e coletivo, fundamentado na doutrina do amor ao próximo.  Esse sistema não encontra modelo na realidade terrestre.  Seu paradigma é essencialmente espiritual, portanto “não é desse mundo”, no entanto começa neste mundo e mais especificamente em cada um de nós.

            Esse pensamento responde a questão filosófica milenar: “Por que estamos aqui?” Seria para adquirir os aprendizados necessários a construção desse sistema.  Não algo para ser gozado em uma realidade espiritual futura, mas construído e experimentado já a partir da realidade material.

            Assim, o conceito de espiritualidade começa a se diferenciar do conceito de religião.  Ou a religião natural começa a se distinguir da religião institucional. 

            A espiritualidade, ainda segundo Leonardo Boff, seria o lago de água pura e cristalina, enquanto que a religião seria o encanamento pelo qual a interpretação humana leva essa água para a sociedade.  Como toda obra humana ela esta sujeita aos defeitos, aos vazamentos, às impurezas de toda a sorte.

            A espiritualidade é tudo aquilo que leva o ser humano e os que o rodeiam, à felicidade.  Nesse sentido um sistema econômico justo seria um fator de espiritualidade maior do que a instituição de uma Igreja por exemplo.  Um ateu que busque essa reforma íntima com o objetivo de ser feliz e contribuir com a felicidade alheia não pode ser considerado religioso, mas está em sintonia com a espiritualidade.

É a tese da materialidade dialogando com sua antítese espiritual gerando a síntese de uma sociedade espiritualizada e plena em suas necessidades materiais.

            Assim, uma religião que atue apenas no campo da catarse não preenche os requisitos para a construção do novo  ser humano e dessa nova sociedade, portanto atua fora do conceito de espiritualidade.

            Da mesma forma uma doutrina social transformadora que não leve em conta a espiritualidade está fadada ao fracasso.  Uma vez que o ser humano não pode ser dissociado da sua condição espiritual.

O jornalista e filósofo espírita José Herculano Pires (1915-1979) afirmava que a experiência provou a inviabilidade prática de uma consciência proletária.  O principal motivo foi que a revolução proletária foi impulsionada e dirigida por forças estranhas ao proletariado.  Ele observou que a “filosofia do proletariado” não conseguiu atraí-lo e empolga-lo mais do que a demagogia fascista ou o diversionismo democrático dos países capitalistas mais altamente industrializados. 

            Se nos revela ainda que a vitória das chamadas “minorias conscientes” cria novos e violentos antagonismos internacionais, cada vez mais agressivos, – é evidente que só nos resta procurar uma saída humana, e não proletária nem burguesa, para essa terrível situação. A saída não será a da submissão, a do pescoço entregue mansamente à canga, mas não será também a da violência e a da força.”

            Herculano Pires nos apresenta a interpretação mais próxima do ensinamento evangélico de “Dar a outra face”.  Se a dialética é o diálogo dos contrários, ela não existirá na resposta violenta operária à violência burguesa. Por outro lado, a passividade religiosa não apresenta antítese à dominação, portanto também nega a dialética. 

            Herculano afirma ainda que a constatação da inviabilidade da violência não significa o fim ou mesmo a interrupção da luta. “Isso não quer dizer que a luta não se processe, que tenha sido interrompida no seu organismo, e que tenhamos de esperar o advento espontâneo da nova forma social, mas apenas que a luta se desenvolve de maneira diversa, em plano mais alto.”

            E que plano seria esse?  Em atos dos apóstolos há uma narrativa de como seria essa realidade.  Entre eles ninguém passava necessidade, pois aqueles que possuíam terras ou casas, vendiam-nas, levavam o dinheiro o colocavam aos pés dos apóstolos. Depois, era distribuído conforme a necessidade de cada um.” 

A passagem se enquadra perfeitamente no pensamento marxista.  Aliás foram Marx e Engels os que mais se aproximaram da formatação dessa proposta em escala global.  Portanto, o pensamento Marxista é leitura obrigatória para quem quer sair da visão utópica e melífera da justiça social e buscar ferramentas práticas para sua implantação na terra.

Negando de forma preconceituosa o pensamento marxista estaremos desperdiçando um tesouro de elaboração de conhecimento extremamente necessário para a construção dessa nova sociedade. Em vez de negar Marx sem conhecer os seus postulados, é preciso estuda-lo e preencher o vazio do materialismo com as novas descobertas científicas advindas das pesquisas espíritas e de demais atores da ciência ampliada. 

 

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