O Espiritismo não deve se assumir como religião

Por Leilton Lima*

Em comunicação não é o que você expressa que é o mais importante e sim o que os outros entendem.  Esse entendimento depende de uma série de fatores, ligados à visão que cada um de nós tem da realidade.  O escritor francês Antoine de Saint-Exupéry já dizia: “A linguagem é uma fonte de mal-entendidos”.  Durante o processo da codificação espírita, em vários momentos, os espíritos de alto nível alertaram Alan Kardec, para as limitações de compreensão impostas pela pobreza da nossa linguagem.

Sabedor dessa verdade, Alan Kardec afirmava que, em que pese o Espiritismo ser uma religião no sentido filosófico, os espíritas deixavam claro NÃO se tratar de uma religião.  E explicava o motivo dessa aparente contradição:

 “Na opinião geral, a palavra religião é inseparável da de culto; desperta exclusivamente uma ideia de forma, que o Espiritismo não tem”.  (Revista Espírita, dezembro de 1868, p. 490-491, grifo nosso).  

Observe que o codificador não se preocupa com o significado da palavra em si, mas do conceito da sociedade acerca do termo e com isso deixa claro o porquê de não ser adequada a afirmação de que o espiritismo é uma religião.

“Se o Espiritismo se dissesse uma religião, o público não veria aí mais que uma nova edição, uma variante, se se quiser, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; não o separaria das ideias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes a opinião se levantou.” (Idem)

E ele sentencia:

“Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual da palavra, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor inevitavelmente se teria equivocado. Eis por que simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral”. (Idem)

Se naquela época o termo “religião” já estava desgastado pela deturpação do seu significado, hoje a democratização da informação via Internet ampliou mais ainda esse desgaste.  Tanto que personagens de renome, ligados a tradições religiosas como o filósofo Leonardo Boff e o líder evangélico Caio Fábio, já assumem o termo “espiritualidade” em substituição ao termo religião. Em seus discursos, ressaltam a espiritualidade como laço ético-moral e apontam a religião como uma deturpação humana da mensagem divina.

O conhecimento espírita se antecipou também a essa percepção das mentes mais avançadas de hoje.  No entanto, o alerta da espiritualidade superior não foi colocado em prática e insistimos em alardear que o espiritismo é ciência, filosofia e religião.

O recado claro e objetivo da espiritualidade maior, não foi seguido à risca e o resultado é exatamente o que temia o sábio francês que nos legou a codificação da doutrina espírita: aos olhos superficiais do senso comum, o espiritismo é (nos reportando às palavras usadas por Kardec), “uma nova edição de religião, uma variante dos princípios absolutos em matéria de fé” e está, nessa ótica, tão vinculado a ideias de misticismo que chega a ser confundindo com as religiões de matrizes africanas.

Está mais do que na hora de corrigirmos essa falha. A Terra está recebendo espíritos de alto nível, encarregados de auxiliar a transição planetária para a condição de mundo de regeneração. Por sua condição de elevado saber, eles não aceitam a ideia do deus feito à imagem e semelhança do homem, ensinado pela religião.  É natural, portanto, a repulsa desses recém-chegados a tudo o que tiver vínculo com esse conceito.

Cabe a nós, pavimentar o caminho deles até o conhecimento superior encerrado na doutrina espírita, lhes dando uma alternativa ao cientificismo materialista, limitador das consciências. E isso começa pela disposição de divulgar a doutrina, seguindo à risca as orientações da espiritualidade maior, inclusive no que diz respeito à pobreza da linguagem humana.

*Leilton Lima é jornalista e subcoordenador de Comunicação da CRENATAL/FERN

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