Nós, sonhadores calados!


Entrei no movimento popular por solidariedade. Fui movido por aquela convicção íntima de que todos devem ter os mesmos direitos e oportunidades. Na Pastoral de Juventude do Meio Popular(PJMP), encontrei muitos que pensavam assim. Éramos guiados por princípios como fraternidade, paz, justiça social…

Naquele momento, o terror da ditadura militar ainda dava seus últimos suspiros. Era o governo do general João Batista Figueiredo. Aquele que afirmou gostar mais de cheiro de cavalo do que de cheiro de povo. A corrupção já rolava solta, mas poucos sabiam. Quem sabia e falava morria! Em plena ditadura eles diziam na mídia que o Brasil vivia uma democracia!

O salário mínimo não chegava a US$ 100,00; aos montes, famílias choravam a morte de entes queridos mortos por doenças causadas pela fome; a universidade pública era composta por 87% de estudantes ricos. O Brasil era o País que “vai pra frente”, mas apenas para os ricos que ficavam cada vez mais ricos.

A gente foi às ruas. A mídia nos taxou de baderneiros, anarquistas. Manipulados e desinformados, os que nós defendíamos também nos hostilizavam. O povo votava contra si mesmo, apesar dos nossos alertas. No RN elegiam sempre Maias ou Alves. No País colocaram Sarney, Collor e FHC no poder.

Parecia impossível, mas eis que um dia elegemos o primeiro operário como presidente do Brasil. E veio a decepção. As mudanças não vieram da forma e na rapidez que sonhamos. O partido em que depositamos nossa esperança, aceitou como aliados políticos que outrora combatemos.

Precisou de um bom tempo para entendermos que o caminho possível, naquele momento, era aquele que rejeitamos. Esse entendimento veio com os resultados: o salário mínimo aumentou 1000% e ficou acima da inflação; os pobres começaram a frequentar as melhores universidades do País e dividir espaço com os ricos nos aeroportos. No interior, o jumento foi substituído por motos; milhões de crianças tiveram acesso à escola e as mulheres assumiram poder de comando na família, através do cartão bolsa-família.

Não foi a forma que imaginamos, nem no tempo que esperávamos, muito menos o tanto que queríamos, mas algo começou a dar certo. Os donos do poder econômico perderam espaço político, mas não perderam poder. Aqueles que queriam continuar praticando caridade aos pobres, se viram obrigados a dividir o mesmo espaço no restaurante. Aí já era demais! E o ódio começou.

Como uma bomba, explodiu o caso do mensalão. A mídia denunciava “o maior escândalo de corrupção da história do Brasil”. E era do PT. Logo do PT, o partido no qual depositamos a nossa fé na luta contra a corrupção. A gente se sentiu traído.

As notícias nas TVs e revistas nos pegaram de jeito. Ficamos envergonhados, atarantados e nos calamos. Nossa bandeira de princípios apresentava um rasgão feio que chamava mais atenção do que os avanços sociais que libertaram da miséria milhões de pessoas. E a direita fez a festa, como se fossem puros, limpos e imaculados.
Sobre o nosso silêncio envergonhado a única voz ouvida era a deles. O velho, manjado, conhecido, usado e corriqueiro crime eleitoral do Caixa 2, praticado a céu aberto por todos os grandes partidos do País, foi apontado como exclusividade do PT. Denúncias ainda mais graves, devidamente comprovadas, envolvendo os partidos da elite conservadora, foram abandonadas pela Justiça e escondidas pela mídia.

Apesar da injustiça, nós nos mantivemos calamos. Pior muitos de nós somaram sua voz à da elite conservadora. Afinal, o fato de outros fazerem ainda pior, não nega que nossos aliados o fizeram. Corrupção é errado! Nós não a aceitamos. Sempre lutamos contra ela!

Reforçados voz dos que concordavam e encorajados pela omissão dos que silenciaram os lobos vestidos de cordeiro ficaram ainda mais ousados. A acusação já não era de Caixa 2 e sim de corrupção ativa. Crime muito mais grave, com punição mais severa. A mídia fez o Supremo Tribunal Federal o palco de um Big Brother político. Informações foram escondidas, dados manipulados, falsos salvadores da pátria surgiram. Os petistas foram condenados por um delito diferente do que cometeram, mesmo sem provas, sob uma desculpa jurídica chamada Teoria do Domínio do Fato.

Enquanto a Justiça e a mídia escondiam escândalos envolvendo bilhões de reais, os cerca de R$ 55 milhões eram inchados artificialmente para produzir ódio na elite e nos desinformados, e mais vergonha nos simpatizantes e militantes da esquerda. Genial a estratégia do mal. É preciso confessar que eles são mestres nisso!

O circo estava armado e o cerco impenetrável. Quem ousava levantar a voz contra a injustiça contra os petistas era taxado de “defensor de corrupto”. Poucos ousaram. E os petistas, foram condenados presos, expostos à execração pública e ao ódio. Envergonhados e com medo, nós negamos os condenados por três vezes. Ou por tantas vezes fossem necessárias. Os que reagiram formaram uma rede nacional de defesa da verdade, que até hoje nada contra a maré nas redes sociais. Eu fui um deles.

Tarefa perigosa. Defender uma pena justa parecia com defender a corrupção. Defender que a Lei valesse para todos e não para apenas um grupo político, era tido como ser a favor da impunidade. A maioria de nós lavou as mãos, não dava para pagar o preço de ser taxado de corrupto. Logo nós, que tanto lutamos e denunciamos a corrupção! E nessa realidade confusa e distorcida, a grande mídia semeou o ódio que hoje contamina parte do País.

Apesar de tardia a ação militante nas redes sociais serviu para buscar um equilíbrio na disputa contra a campanha de desinformação e mentira da grande mídia. Graças à reação de alguns corajosos, a direita não conseguiu esconder de todo sua canalhice. Com denúncias de parte a parte, o tumor da corrupção, que até então silenciosamente corroía o país por dentro, escondido por governos como o de FHC e pela mídia, enfim estourou. O pus que jorra dele, dá nojo.

O fato é que estrago está feito. Como urubus que anseiam pela carniça, a direita sobrevoa de cima, feliz com o sucesso do seu plano. Abraçados com um Poder Judiciário conivente e com uma mídia golpista, lambem os beiços na expectativa de voltar ao poder.

Precisamos fazer de novo soar a nossa voz contra a corrupção seja em qual for o partido. Mas precisamos defender a continuidade e concretização desse ensaio de justiça social inaugurado por Lula e Dilma. Precisamos fazer isso em defesa dos milhões de brasileiros que ainda padecem sob a bigorna da injustiça social e pela garantia de que, os que já se libertaram, não sejam de novo aprisionados pela fome e pela miséria.

Como fizemos no passado, precisamos romper o silêncio e falar de novo. E, de novo, movidos pela solidariedade.

Leilton Lima

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